No

A vitória do «Não» no referendo da Venezuela teve três efeitos positivos:

Chavez mostrou que a Venezuela, embora seja uma democracia vigiada, é uma democracia.

 Os venezuelanos mostraram (uma vez mais) que as «revoluções socialistas» não se fazem nas urnas.

A democracia mostrou que é o único regime que permite dizer pacificamente «por que no te callas».

Israel, Ontem e Hoje

É hoje lançado o volume colectivo Israel, Ontem e Hoje (Difel). Um livro que nos lembra que Israel, para o mal e para o bem, é um país concreto, e não uma entidade abstracta, como às vezes aparece nalguns discursos. Pedimos uma brevíssima apresentação a uma dos dois organizadores desta edição, a investigadora em assuntos judaicos Esther Mucznik, a quem agradecemos.

Em Portugal, raros são os livros que se debruçam sobre Israel, o país real. Para grande parte da população, Israel é feito de tanques, de soldados sem rosto ou então explorando o lado «folclórico» dos religiosos ortodoxos. O rosto humano é normalmente reservado aos palestinianos, a cujo sofrimento os media concentram uma atenção inesgotável e unilateral. A ideia de fazer este livro surgiu precisamente desta lacuna: pretendemos dar a conhecer alguns aspectos da sociedade israelita, que não se limitem ao conflito israelo-palestiniano. Assim são abordadas questões como Israel na antiguidade e a importância de Jerusalém, a génese do sionismo e a formação do Estado, as relações entre o Estado, a religião e a minoria árabe, a diáspora judaica, e a expulsão das comunidades judaicas dos países árabes, as relações com a Europa, a América e o Vaticano. Para isso, solicitámos a alguns dos melhores e mais conceituados especialistas israelitas e portugueses o seu testemunho, a sua visão e reflexão sobre Israel. Neste ano em que se comemora o 30º aniversário de estabelecimento de relações diplomáticas entre Portugal e Israel, esperamos que este livro contribua para um melhor conhecimento da realidade.

El Rey remix

A votação

Perguntámos aos leitores do Gattopardo que opinião têm sobre o «Tratado de Lisboa». Chegados aos mil votos (994, na verdade), eis os resultados:

  1. Inevitável: 29 % (292 votos) 
  2. Contestável: 28 % (278 votos) 
  3. Aceitável: 20 % (195 votos) 
  4. Inaceitável: 14 % (138 votos)
  5. Admirável: 9% (91 votos)

Sobre as tendências do nosso e-leitorado, damos a palavra ao politólogo Pedro Magalhães, director do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica, cuja colaboração agradecemos.

O Instituto de Sondagens Político-Eleitorais do Principado de Lampedusa resolveu conduzir uma sondagem online sobre o Tratado de Lisboa. Tal como sucede com todas as sondagens online de participação voluntária, esta também diz mais sobre os autores do que sobre outra coisa qualquer. O facto das opções de resposta serem oferecidas em rima - ideia que tenho vindo a ponderar para as sondagens da Católica - é um primeiro sinal. Depois vêm os próprios resultados, consequência do perfil dos leitores do blogue e logo, de alguma forma, espelho dos autores: a tendencial recusa das opções extremas (”Admirável” ou “Inaceitável”) e a distribuição mais ou menos equitativa pelas opções restantes. Mas o melhor de tudo é mesmo o facto das opções de resposta oferecidas aos votantes não serem sequer mutuamente exclusivas. É um erro elementar na construção dum questionário, claro. Mas é acerto elementar em, digamos, tudo o resto. Aliás, foi isso que sempre gostei nos responsáveis deste instituto: para eles, as opções de resposta nunca são mutuamente exclusivas. Acho até que Pascal tinha uma frase boa sobre este assunto (e sobre todos os outros, de resto).  

Lá vai Lisboa

O terrorismo intelectual já conhecíamos há muito: quem discorda de um determinado documento ou de uma determinada decisão da UE é contra a Europa.

Agora temos também o terrorismo kitsch: quem discorda do «Tratado de Lisboa» não é patriota.

O Tratado de Lisboa

Não vale a pena descrever o debate sobre o Tratado de Lisboa como um conflito entre europeístas e anti-europeístas. Já não estamos aí. Os argumentos soberanistas contra a Europa estão esgotados. E nem sequer eram os mais relevantes na altura em que a Constituição Europeia estava em cima da mesa.

Este Tratado de Lisboa não é um tratado satisfatório por motivos que residem, antes de mais, na própria Europa. Mesmo se muitas inovações concretas do Tratado também nos penalizam a nós, como o novo desenho institucional que foi agora criado.

A verdade é que a Europa não precisava de 90% da antiga Constituição Europeia.

Há muita gente que elogia o acordo obtido, como se este representasse o nascimento de uma «Nova Europa». O Professor Freitas do Amaral até sugeriu que se toque o Hino da Alegria na cerimónia de assinatura.

Mas não há «Nova Europa» nenhuma.

Para citar aquele que é talvez o melhor politólogo da integração europeia no momento, o inglês Simon Hix, este Tratado é o mais irrelevante de todos os tratados europeus. E era também o mais dispensável. Os problemas de fundo da Europa (transparência, mobilização, abertura às reformas) não vão ser resolvidos com este Tratado.

Quem defende com entusiasmo o Tratado que nos explique as superiores vantagens das suas inovações, antes de nos bombardearem com uma linguagem épica que não tem aqui qualquer sentido.

A «respeitabilidade»

Apesar de em 1976 ter votado contra a Constituição, o CDS faz parte do chamado «arco constitucional». Em grande medida porque entrou no «arco da governabilidade» via coligações com o PS e o PSD.

Não se percebe por isso a obsessão recorrente pela «respeitabilidade» que assola o Caldas. E ainda menos os caminhos abstrusos para essa «respeitabilidade». Durante anos a «respeitabilidade» significou o «centrismo», essa suprema aberração ideológica. Agora, o CDS quer ser respeitável aderindo aos unanimismos do Bloco Central. E logo num dos seus aspectos mais nefastos.

Por mais avanços e recuos doutrinários que o CDS tenha tido (e teve), nada justifica que agora ache o Tratado de Lisboa bestial, o referendo dispensável e os críticos, porventura, uns «anti-europeus».

Se é isto ser respeitável, então precisamos de uma direita bastante mais (digamos) infame.

Leituras

Os propriamente ditos, para desenjoar dos PowerPoint.

Atestados morais é no guichet 16

Não existe uma «boa direita» e uma «má direita». Como não existe uma «boa esquerda» e uma «má esquerda». Existem simplesmente diferenças de opinião. E as diferenças de opinião não são diferenças de carácter.

Ensaios de Terror

Já conhecíamos o policial, o thriller, a literatura gótica, os horror books, enfim: toda essa ficção de qualidade diversa interessada em espalhar o medo junto do público. Agora, parece que vamos ter de acrescentar um novo género: o ensaio de terror.

Como definir o género? O ensaio de terror baseia-se em reflexões directas e enxutas, sempre com alguma base empírica ou sociológica, à volta de um tema de actualidade política, económica ou social.

O ensaio de terror procura prender os leitores, recorrendo a diferentes ilustrações de uma realidade que os seus autores consideram aterradora. A sensação de terror vai crescendo à medida que o ensaio avança, até o leitor ficar convencido de que a única forma de escapar passa por uma mudança de comportamentos, de hábitos ou de políticas.

O ensaio de terror pretende mexer com interesses e preocupações básicas das pessoas, na mesma medida em que as histórias de terror visam agitar os nossos pânicos e fobias e os policiais a nossa incredulidade.

O ensaio de terror estabelece sempre um compromisso mínimo e razoável com os factos e a verdade. A interpretação pode estar errada, mas os factos são verdadeiros e verificáveis.

Um excelente exemplo de um ensaio de terror é o recente livro de Alberto Alesina e Francesco Giavazzi, Goodbye Europa. Cronache di un declínio económico e politico, traduzido este ano em Portugal como O Futuro da Europa (edições 70).

Alesina e Giavazzi são dois académicos que se transferiram para a exigente universidade americana. São ambos também colunistas em jornais italianos: o segundo escreve semanalmente no “Corriere della Sera”.

Servindo-se do método típico do ensaio de terror, Alesina e Giavazzi avisam logo à partida que querem irritar e provocar os europeus. Depois apresentam os factos da dura realidade europeia. Sustentam que um mundo em que os rendimentos individuais não crescem não torna felizes as pessoas. Falam da cultura da estagnação que se apoderou da Europa. Referem que o período de crescimento económico, acompanhado de elevados índices de protecção social terminou. Notam que os europeus trabalham menos por falta de incentivos para trabalhar mais, por causa de leis laborais demasiado protectoras ou sistemas sociais demasiado generosos. Advertem que os europeus precisam de imigrantes para combater o declínio demográfico e precisam de encarar os probleas provocados por essa imigração, através de politicas de imigração selectivas.

E, sobretudo, concluem que os Estados como a Itália (o diagnóstico também é válido para Portugal) criaram grupos de privilegiados e protegidos que se opõem a afirmaçao do mérito, desconsideram o trabalho e distorcem o Estado social.

Alesina e Giavazzi voltaram à carga com outro livro (um panfleto) chamado Il liberalismo è di sinistra. Escreveram-no propositamente para influenciar a coligação que sustenta o governo de Romano Prodi.

Se o liberalismo é de esquerda ou de direita, não sei nem me parece um debate importante.

Mas posso dizer que este ensaio de terror surtiu algum efeito. Por mim, estou assustado.